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MIRELLA
(André Albuquerque)
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Se não fossem o linho e a cambraia
à quadrangular tuas formas sinuosas,
repararia mais no vão de tua saia,
quando displicentemente entreaberta posas.
O rouge e o perfume adocicado
levam cor à sua tez sofrida,
um sorriso falso, um olhar cansado,
revelam o tom amargo de sua vida.
Pareces nem poder pecar em pensamento,
sob a pena de ter as entranhas umedecidas,
pela lascívia que habita o seu convento.
Então viva o desejo que acende a tua saia!
Rasgue de vez esse linho e essa cambraia,
e rompa os grilhões que acorrentam-te ao medo!
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SONETO DO AMOR PERFEITO
(Eloah Borda)
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Ah!... Em sonhar aquele amor perfeito,
que acreditei, ainda existir pudesse,
a vida se me foi... e no meu peito,
agora um triste coração fenece.
Já de esperar cansado, contrafeito,
sentindo o frio da solidão, em prece,
pede um amor qualquer, mesmo imperfeito,
que o faça reviver...Ah, se eu pudesse!
Mas é tão tarde! A estrada é quase finda,
e não há volta no caminho estreito
que sempre adiante segue nesta vida.
Agora é prosseguir, mesmo que ainda,
a solidão que habita no meu peito,
te mate, coração, não há saída...
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EXPECTATIVA
(Antônio Kleber)
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A flor do amor que colho agora é tua,
botão agreste, vaso de perfume.
Como o teu corpo belo, ele resume
a rosa rubra, meiga, doce e nua!
Ao teu desejo, empresto o meu costume
de venerar-te o porte pelas ruas,
sabedor que do orgulho não recuas,
mas ciente que és mulher sem azedume!
Prezo-te mais que tudo e não te esqueço;
vives dentro de mim como um segredo;
no teu amor, eu vivo a transcender.
A esperar-te ansioso permaneço,
com a flor hoje colhida no degredo,
para por cobro, enfim, ao meu sofrer!
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DO QUE É SÓ SEU
(André L. Soares – 01.06.07 – Guarapari/ES)
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Na hora do gozo,...
quando você me abraça,
seu olhar me revela
calma e desespero...
e eu, já estando em seu corpo
– saboreando esse gosto –,
penetro a alma,
desvendando desejos.
Na hora do grito,...
quando mais forte me aperta
boca e pernas abertas
a me querer por inteiro,...
inteira também a sinto
e, após o amor
– sobrando riso em seus lábios –,
só não decifro a beleza
daquele momento mágico
quando tão displicente
pende a cabeça pra frente
e lança...
para trás os cabelos.
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LUSCO-FUSCO
(André L. Soares - 12.03.07 - B. Horizonte/MG)
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Pior que entre paredes
é ver no ar livre o muro,
perceber a solidão que há em tudo,
sentir o passo preso aos nós.
Contra essa prisão resisto e luto
nos limites do escuro
entre dois sóis,
atento ao alerta de perigo
que se traduz nos tons do lusco-fusco,
quando o tempo
– implacável e brusco –
rouba-me o prazer
da tua voz.
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ANALOGIA
(André L. Soares – 28.10.06 – Brasília/DF)
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Faz tempo, procuro a analogia material para o amor. Um produto que seja unânime ou que, ao vê-lo, poucos resistam. Um objeto de desejo quando se está ainda nas idades mais puras e, também (embora com mais cautela), nas demais faixas etárias. Buscava o símbolo doce, alegre, colorido, leve, gostoso, aromatizado e, de certa forma, nem caro nem barato. Não que o amor seja comprado. Mas, sabe-se, amar não é gratuito. Do mesmo modo, tal representação não poderia ser abundante, nem escassa. Seria algo não consumido em demasia, tampouco sofresse escassez. E se o amor começa no olhar e no beijo, haveria de ‘encher os olhos’ e, despertar a gula, passando obrigatoriamente pelos lábios. Porque amor é alimento. Engorda ou emagrece, face a correspondência ou o metabolismo de cada um. Esses caracteres teriam que constar dessa simbologia. Entendi que, se os excessivamente vaidosos e egoístas têm dificuldade de amar além de si, haveriam, talvez por estética, de resistir ao produto, o qual possuiria, ainda, sutil relação com a sexualidade. Percebi que se tratava de guloseima que, ao se degustar, faz-se com calma, olhos quase fechados, chegando-se a gemer baixinho e, ao final, querendo mais. Um produto assim seria encontrado em shoppings. Porque o amor é de fácil acesso. Fui até uma ‘praça de alimentação’. Não tardei a reconhecer o que procurava. Defini o amor, então, na concepção mais capitalista da palavra sem, contudo, deixar de ser um deleite: o sabor é chocolate; o nome, ‘milk shake’. Muitos dirão ser errada a analogia, pois o amor é ‘quente’ e o produto mencionado é ‘frio’. Mas não. Sem amor, somos quase sempre frios e secos: falsos e ridículos ‘bacantes’, embebidos de vil alegria. No entanto, o corpo vive a quebra do gelo e se derrete de verdade, somente após o entrelace frenético das línguas.
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AOS SERTANEJOS
(André L. Soares – 03.12.04 – Brasília/DF)
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Cidade grande é uma ‘belezura’,
com muita obra de envergadura,
tudo lindo, luxento e formoso,
gente correndo que nem formiga,
comendo horrores, criando barriga,
num vai-e-vem supimpa e vigoroso.
Milhões de carros em movimento,
tanto prédio, tanto apartamento,
luzes, vidro, asfalto, cor, cimento,
chegando mesmo a ser assombroso.
Mas nisso tudo há muita tristeza...
gente vivendo em meio à safadeza,
desfrutando do fruto afanado,
homem a explorar um outro homem,
tantos querendo matar a fome,
tanta comida em supermercados.
Tanta gente a se exibir no terno,
com soberba em nível sem igual,
o povo humilde só a passar mal,
a justiça vive em bacanal,
já se tornou a matriz do inferno.
A miséria cresce e se esparrama,
ladrão rico monta e deita cama,
a lei é dura só pra pobretões.
Os alimentos são ruins e caros,
amores são cada vez mais raros,
nas leis mortas, pairam transgressões.
A escola é vil, suja e decadente,
hospitais não curam os doentes,
aumenta só a massa dos carentes,
superlotam-se todas as prisões.
Já na roça o mundo é mais quieto.
Povo aqui não é metido a ‘esperto’.
O caipira é até meio ‘desletrado’,
ganhando a vida sobre o torrão,
arranca um milagre com a mão,
na terra, no boi, no rio e no arado.
Sob o sol que esse povo trabalha,
com foice, enxada, faca e navalha,
tomando pinga e pitando a palha,
corpo há muito tempo calejado.
O tabaréu fala tudo errado,
com os verbo assim, mal colocado,
sem entender metade dos nome.
Porém, não vive só de fantasia...
se amanhã nós te ‘dizê’ ‘– bom dia’,
em nossa casa’ocê dorme e come.
Se ‘bestá’, você vira até parente.
‘Desagradô’, nós diz na tua frente.
‘Home’ do campo é capiau valente...
nós não vive em meio à hipocrisia.
Galo ‘cantô’, nós já ‘estamo’ em pé.
Nossa Senhora tem a nossa fé,
nela buscamos a redenção.
Na procissão tem santo no andor,
nas famílias sobra mais amor,
modismo aqui nem existe não.
Não se é escravo do tal de cinema,
Então nós prefere é as ‘muié’ morena,
nós quer rezar os terço e as novena,
e tocar viola ao luar do sertão.
Mas o caboclo, não é irresponsável.
Nossa labuta, é assaz louvável.
Nós que forjamos a produção,
na roça é que o trigo é semeado,
no pasto é que o novilho é criado,
colhe-se o milho, o arroz e o feijão.
A verdade se apresenta pura...
século após século de bravura,
nós na lida com a agricultura,
desenvolvendo a nossa nação.
Desde a data do descobrimento,
desde o nosso primeiro momento,
planta-se aqui o que essa terra der.
Luta ardente, silente vitória...
ciclo após ciclo em nossa história,
cana-de-açúcar, gado e café,
milho, cacau, soja e algodão,...
uns vivendo’inda na escravidão,
de paga a ‘pê-eme’, de arma na mão
e o sertanejo, forte,... de pé.
Por isso, respeite os homens do campo
e não nos deixe, assim pelos cantos,
sem terra para ‘plantá’ e ‘vivê’.
Nós não morremos pobres bóia-fria
para essa corja podre de Brasília
se ‘amostrá’ às nossas custas na ‘tevê’;
rindo-se à toa do PIB elevado,
mas deixando ali, sempre de lado,
o câncer impune do Eldorado,
ferida aberta no ‘eme-esse-tê’.
Então’ocê, rico barão togado,
professor, médico, ‘adevogado’,
medalhas, pompas pra mais de mil...
quando for sentar-se à santa ceia,
na dispensa farta, sempre cheia,
de fruta, legume, pão e pernil,
saiba que aqui sempre foi o matuto,
jeca, roceiro, leal, roto e bruto,
o honrado e sábio, homem astuto,
que com seu suor, sustenta e alimenta
esse gigante chamado Brasil.
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